quinta-feira, 8 de setembro de 2016

ENSINO MÉDIO: A árvore genealógica dos partidos políticos do Brasil

A árvore genealógica dos partidos políticos do Brasil



Quem nunca teve a curiosidade de desenhar a árvore genealógica de sua família? Ainda mais sendo oriundo de uma família de imigrantes (alemã, italiana, etc). Aquela ‘pontinha’ de curiosidade, que ajuda a pensar “de onde venho e para onde vou”? Pois nestes últimos dias, resolvi me debruçar sobre a história dos partidos políticos brasileiros e fazer o mesmo.
– Brasil Império e República Velha
Para começo de conversa, durante o Brasil Império (1822-1889), dois partidos “de direita”, que defendiam a manutenção da escravatura, bipolarizaram o poder: Partido Liberal e Partido Conservador. O cenário só começou a mudar com a aparição dos Partidos Republicanos. Não existia uma união nacional nesta época, com os quadros sendo formados dentro dos Estados (o Partido Republicano Paulista, o Mineiro, e o Riograndense, de Júlio de Castilhos, por exemplo). Estes dominaram o palco principalmente a partir da Proclamação da República e estabelecendo a política do ‘café com leite‘, com paulistas e mineiros se revezando no poder. É preciso compreender que neste período não havia o sufrágio universal. Ou seja, mulheres e pobres não iam às urnas. Portanto, as referências políticas eram pessoas da elite social.

– Era Vargas
Oriundo do PRR (Partido Republicano Riograndense), o gaúcho Getúlio Vargas chegou à presidência em 1930 graças a um golpe de Estado que interrompeu o revezamento de paulistas e mineiros. Quatro anos depois, promulgou uma nova Constituição, impondo entre outras coisas o voto secreto, o voto às mulheres e direitos trabalhistas. Com a implantação do Estado Novo (nada mais do que uma ditadura populista), viu as oposições se radicalizarem entre extrema-direita e extrema-esquerda: Ação Integralista Brasileira (AIB), que defendia um governo fascista; e Aliança Nacional Libertadora (ANL), formada por integrantes do PCB (Partido Comunista Brasileiro). Aliás, este último, conhecido como ‘Partidão’, foi o primeiro viés de esquerda na política nacional, fundado ainda em 1922, acabou sendo tornado ilegal por muitos dos governos que assumiram o país. Apesar de fortes revoluções organizadas por essas duas frentes, Vargas manteve-se na presidência até 1945. Voltaria eleito cinco anos depois, mas antes ainda foi o avalizador de dois partidos que seriam fundados: PSD (Partido Social Democrático) e PTB (Partido Trabalhista Brasileiro) – pelo qual se filiou. No espectro oposto, surgiria a UDN (União Democrática Nacional), uma herdeira dos Partidos Conservador e Liberal. Seria a principal oposição ao governo getulista até seu suicídio em 1954.

– Ditadura Militar
Com o golpe militar de 1964, apoiado inicialmente pela UDN para derrubar o governo trabalhista de João Goulart (‘filho político’ de Getúlio), todos os partidos – da esquerda à direita – entraram na ilegalidade. Do PCdoB (Partido Comunista do Brasil, herdeiro do PCB), passando pelo PSB (Partido Socialista Brasileiro, encontro de ideologias entre PCB e PTB), PDC (Partido Democrata Cristão) e alcançando até a própria UDN. Permitia-se apenas a adesão a duas vertentes: MDB (Movimento Democrático Brasileiro) e ARENA (Aliança Renovadora Nacional). Era como se, de uma hora para outra, a política nacional voltasse ao período do Brasil Império, onde vigoravam apenas os liberais e conservadores. Os quadros da centro-esquerda foram forçados ao exílio (como o petebista Leonel Brizola), enquanto os da extrema-esquerda assumiram a ilegalidade para criar grupos armados – ALN (Aliança Libertadora Nacional), MR8 (Movimento Revolucionário 8 de outubro), VPR (Vanguarda Popular Revolucionária), entre outros.

– Reabertura política

Diante das manifestações populares pelo fim dos governos militares, foram surgindo novos partidos. Com o DNA getulista, Brizola fundou o Partido Democrático Trabalhista (PDT). Este ainda recebeu alguns componentes dos grupos revolucionários, enquanto a maioria acabou migrando para o recém fundado Partido dos Trabalhadores (PT), encontrando-se com líderes de movimentos sindicais. Com o desprestígio da ARENA, surgiu o PDS (Partido Democrático Social), que passaria a abrigar aqueles políticos que governaram sob o guarda-chuva militar, como José Sarney. O MDB, por sua vez, foi quem surfou a onda da abertura política, sendo a cara da recente democracia brasileira. Velhos partidos, como PCdoB, PSB e PTB também foram reativados, mas já desvirtuados das ideologias que os havia fundado.

– Coligações e fisiologismo

A partir da década de 90, os partidos foram se multiplicando. Da direita, saíram do PDS o PFL (Partido da Frente Liberal, hoje DEM), PPB (Partido Progressista Brasileiro, hoje apenas PP) e PRN (Partido da Reconstrução Nacional, hoje PTC) – que elegeria Fernando Collor nas primeiras eleições diretas. Do gigantesco PMDB, surgiria principalmente o PSDB (Partido da Social Democracia Brasileira). Do PT, acabariam migrando vertentes radicais de esquerda, como PSTU (Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado), PCO (Partido da Causa Operária) e mais recentemente PSOL (Partido Socialismo e Liberdade). O impeachment de Collor em 1992, no entanto, influenciaria ainda mais o fisiologismo na vida democrática brasileira. A troca constante de partidos – como do então vice-presidente Itamar Franco, que chegaria ao seu 5º partido ao assumir a presidência (PTB, MDB, PL, PRN e PMDB) – denunciava a falta de fidelidade a uma raiz ideológica. Além disso, o sistema presidencialista de coalizão insuflou as coligações antes inimagináveis. O ‘tucano’ Fernando Henrique Cardoso, por exemplo, ex-MDB, coligou com o PFL (dissidência do PDS e ARENA) para vencer as eleições de 1994 e 1998. Já o petista Lula uniu-se com o PL para fazer o mesmo em 2002 e 2006. Quando que os liberais do Brasil Império imaginariam que seus herdeiros políticos um dia uniriam forças com trabalhadores de movimentos sindicais? Da fusão dessa coligação improvável, por exemplo, saiu o atual SD (Solidariedade), que tem como presidente o deputado Paulinho da Força Sindical – um ex-petista, que se tornou uma das principais bases de apoio ao recente impeachment de Dilma Rousseff. Outra obra do fisiologismo é o recém criado Rede Sustentabilidade, capaz de abrigar a fundadora Marina Silva, ex-PT e PV (Partido Verde); Randolfe Rodrigues, ex-PSOL; Miro Teixeira, ex-PP, PDT e PROS (Partido Republicano da Ordem Social); e João Derly, ex-PCdoB. Isso sem falar no PSC (Partido Social Cristão), herdeiro do antigo PDC extinto pela ditadura militar, mas que já lançou a pré-candidatura de Jair Bolsonaro, um entusiasta do regime militar. Mas talvez o ‘filho mais bastardo’ da política brasileira seja o PR (Partido da República), nascido da fusão entre PL e PRONA (Partido da Reedificação da Ordem Nacional) – pensado e criado pelo ultranacionalista Enéas Carneiro, primo distante do integralista Plínio Salgado. Mesmo assim, não exitou em coligar com o PT nas eleições de Dilma. Sendo assim, à esta altura, onde ninguém mais sabe quem é o inimigo ou amigo na trincheira, urge uma reforma na política brasileira. Ou sigam degustando essa sopa de letrinhas promíscuas e indigestas.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

8º ano: Revolução Francesa

       Revolução Francesa foi o conjunto de eventos que, de 1789 a 1799, alterou o quadro político e social da França, até então dominada pelo Antigo Regime. É considerado um marco na história, iniciando o que chamamos de Idade Contemporânea.
Causas
Uma revolução não ocorre do nada. Dentre as principais causas da Revolução Francesa, podemos destacar:
1- Custo da monarquia: o rei Luís XVI e a sua corte gastavam enormes quantias para sustentar seus privilégios.
2- Idéias iluministas: os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade influenciaram os rumos da revolução, desde o início.
3- Gastos com guerras: a França participou da Guerra da Independência dos Estados Unidos (Treze Colônias) e perdeu a Guerra dos Sete Anos, contra a Inglaterra.
4- Crise econômica: os gastos da monarquia, as guerras, assim como a escassez na agricultura, aumentaram a miséria, a fome e o descontentamento dos franceses.
Divisão da sociedade francesa
A divisão da sociedade francesa também pode ser considerada causa da revolução, pois não havia mobilidade social. A sociedade era dividida em três estados:
1- Primeiro estado: Clero (0,5%)
2- Segundo estado: Nobreza (1,5%)
3- Terceiro estado: Povo (incluindo a burguesia, somavam 80%)
Os privilégios se concentravam nas mãos do clero e da nobreza, que oprimiam o terceiro estado. Além disso, apenas o terceiro estado pagava impostos. Porém, este dinheiro não estava sendo suficiente para sustentar o custo do estado francês.
Assembléia dos Estados Gerais
Para tentar resolver os problemas econômicos da França, o rei Luís XVI convocou a Assembléia dos Estados Gerais.
Esta assembléia reunia membros dos três estados. Naquele momento, o objetivo era fazer a nobreza e o clero também pagar impostos. Seria feita, então, uma votação, que poderia ocorrer de duas maneiras: por estado ou por cabeça.
A votação por estado, ou seja, um voto por estado, agradava a nobreza, pois, obtendo apoio do clero, sempre vencia o povo nas decisões. Eram dois votos contra um. Já a votação por cabeça, considerando a decisão individual na assembléia, agradava ao povo. Isto porque, sendo maioria, garantiria a vitória dos seus interesses.

Sem conseguir conciliar os interesses dos três estados – e sem tomar decisão alguma – Luís XVI mandou fechar a Assembléia.
Descontentes, o terceiro estado – liderados pela burguesia – exigiu a criação de uma constituição para a França. O povo saiu às ruas. A manifestação do povo chegou à Bastilha, prisão política da monarquia francesa. Considera-se que o povo invadiu esta prisão com objetivo de se apoderar da pólvora lá existente. Assim, a Queda da Bastilha, em 14 de julho de 1789, se tornou o símbolo do início da Revolução Francesa.
Assembléia Nacional Constituinte
Ocorrida de 1789 a 1791, a Assembléia Nacional Constituinte foi aberta com o objetivo de criar uma Constituição na França. Foi criada também a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, que defendia o direito à liberdade e à igualdade jurídica. Outras mudanças que ocorreram foi a abolição do regime feudal, da sociedade estamental e a separação entre Igreja e Estado.
Monarquia Constitucional
Em setembro de 1791, foi promulgada a primeira Constituição da França que resumia as realizações da Revolução. Foi implantada uma monarquia constitucional, isto é, o rei perdeu seus poderes absolutos e criou-se uma efetiva separação entre os poderes Legislativo, Executivo e Judiciário. Além disso, foram concedidos direitos civis completos aos cidadãos.
Na prática, a maior parte destas reformas vinham ao encontro dos interesses da alta burguesia, que tentava, com êxito, eliminar os vestígios do Antigo Regime na França.
As monarquias absolutistas da Europa formaram uma aliança destinada a restaurar, na França, os poderes absolutos de Luís XVI. O rei Luís XVI e a rainha Maria Antonieta foram presos, acusados de traição ao país por colaborarem com os invasores. Abril de 1792: Declaração de guerra à Áustria e à Prússia; exércitos inimigos chegam a ameaçar a cidade de Paris.
Convenção Nacional
Ocorrida de 1792 a 1794, a Convenção Nacional é considerada a fase mais radical da Revolução Francesa. Nesta fase, proclamou-se a República e a burguesia se subdividiu em grupos com interesses distintos.
Assim, surgiu os Jacobinos, que representavam a pequena burguesia, e o Girondinos, que representavam a alta burguesia.
Os Jacobinos sentavam-se à esquerda nas assembléias e queriam que a revolução se espalhasse por todos os lugares possíveis.
Já os Girondinos, com medo da reação do povo, queriam que a revolução tivesse fim. Eles sentavam-se à direita na assembleia.
Havia ainda o grupo do pântano ou planície, cujos membros não tinham posições bem definidas, ocupavam o centro das assembleias.
Os Jacobinos se sobressaíram, perseguindo e executando opositores, e instalando o que se denomina período do Terror (perseguição e execução na guilhotina dos suspeitos de trair os ideais da revolução) Em 1793, Luís XVI foi executado na guilhotina, sepultando de vez a monarquia absolutista.
Diretório
Ocorrido de 1795 a 1799, o Diretório foi uma fase conservadora, fruto de um golpe dos Girondinos para retomar o poder na França.
Com a França imersa no caos, e sob a ameaça de ataques internos e externos, a alta burguesia articulou entregar o poder a alguém influente e poderoso. Esse alguém foi Napoleão Bonaparte, general do exército francês que venceu várias batalhas contra os exércitos de países absolutistas que queriam terminar com a onda revolucionaria que começou na Franca, que, a partir de 1799, começou a governar a França.

domingo, 31 de maio de 2015

8º ANO: As condições de trabalho na Revolução Industrial - Depoimentos de época

As condições de trabalho na Revolução Industrial - Depoimentos de época
1) Os primeiros dias de setembro foram muito quentes. Os jornais noticiavam que homens e cavalos caiam mortos nos campos de produção agrícola. Ainda assim a temperatura nunca passava de 29°C durante a parte mais quente do dia. Qual era então a situação das pobres crianças que estavam condenadas a trabalhar quatorze horas por dia, em uma temperatura média de 28°C? Pode algum homem, com um coração em seu peito, e uma língua em sua boca, não se habilitar a amaldiçoar um sistema que produz tamanha escravidão e crueldade? (William Cobbett fez um artigo sobre uma visita a uma fábrica de tecidos feita em setembro de 1824)
2) Pergunta: Os acidentes acontecem mais no período final do dia? Resposta: Eu tenho conhecimento de mais acidentes no início do dia do que no final. Eu fui, inclusive, testemunha de um deles. Uma criança estava trabalhando a lã, isso é, preparando a lã para a maquina; Mas a alça o prendeu, como ele foi pego de surpresa, acabou sendo levado para dentro do mecanismo; e nós encontramos de seus membros em um lugar, outro acolá, e ele foi cortado em pedaços; todo o seu corpo foi mandado para dentro e foi totalmente mutilado. (John Allett começou a trabalhar numa fábrica de tecidos quando tinha apenas quatorze anos. Foi convocado a dar um depoimento ao parlamento britânico sobre as condições de trabalho nas fábricas aos 53 anos).
3) Eu tive freqüentes oportunidades de ver pessoas saindo das fábricas e ocasionalmente as atendi como pacientes. No último verão eu visitei três fábricas de algodão com o Dr. Clough, da cidade de Preston, e com o sr. Barker, de Manchester e nós não pudemos ficar mais do que dez minutos na fábrica sem arfar (ficar sem ar) para respirar. Como é possível para aquelas pessoas que ficam lá por doze ou quinze horas agüentar essa situação? Se levarmos em conta a alta temperatura e também a contaminação do ar; é alguma coisa que me surpreende: como os trabalhadores agüentam o confinamento por tanto tempo. (O Dr. Ward, de Manchester, foi entrevistado a respeito da saúde dos trabalhadores do setor têxtil em março de 1919).
4) Aproximadamente uma semana depois de me tornar um trabalhador no moinho, fui acometido por uma forte e pesada doença da qual poucos escapavam ao se tornarem trabalhadores nas fábricas. A causa dessa doença, que é conhecida pelo nome de “febre dos moinhos”, é a atmosfera contaminada produzida pela respiração de tantas pessoas num pequeno e reduzido espaço; também pela temperatura alta e os gases exalados pela graxa e óleo necessários para iluminar o ambiente. (Esse depoimento faz parte do livro “Capítulos da vida de um garoto nas fábricas de Dundee”, de Frank Forrest).
5) Nosso período regular de trabalho ia das cinco da manhã até as nove ou dez da noite. No sábado, até as onze, às vezes meia-noite, e então éramos mandados para a limpeza das máquinas no domingo. Não havia tempo disponível para o café da manhã e não se podia sentar para o jantar ou qualquer tempo disponível para o chá da tarde. Nós íamos para o moinho às cinco da manhã e trabalhávamos até as oito ou nove horas quando vinha o nosso café, que consistia de flocos de aveia com água, acompanhado de cebolas e bolo de aveia tudo amontoado em duas vasilhas. Acompanhando o bolo de aveia vinha o leite. Bebíamos e comíamos com as mãos e depois voltávamos para o trabalho sem que pudéssemos nem ao menos nos sentar para a refeição. (O jornal Ashton Chronicle entrevistou John Birley em maio de 1849)
6) Na primavera de 1840, eu comecei a sentir dores no meu pulso direito, essa dor vinha da fraqueza geral de minhas juntas, o que vinha acontecendo desde minha entrada na fábrica. A sensação de dor só aumentava. O pulso chegava a inchar muito chegando a medir até 12 polegadas ao mesmo tempo em que meu corpo não era mais do que ossos. Eu entrei no hospital St. Thomas no dia 18 de julho para operar. A mão foi extraída um pouco abaixo do cotovelo. A dissecação fez com que os ossos do antebraço passassem a ter uma curiosa aparência – algo como uma colméia vazia – com o mel tendo desaparecido totalmente.  (William Dodd escreveu sobre sua situação como criança trabalhadora acidentada no trabalho em seu panfleto “Narrativa de uma criança aleijada” no ano de 1841)
7) Quando eu tinha sete anos de idade fui trabalhar na fábrica do Sr. Marshall em Shrewsbury. Se uma criança se mostrasse sonolenta o responsável pelo turno a chamava e dizia, “venha aqui”. Num canto da sala havia uma cisterna de ferro cheia de água. Ele pegava a criança pelas pernas e a mergulhava na cisterna para depois manda-la de volta ao trabalho. (Jonathan Downe foi entrevistado por um representante do parlamento britânico em junho de 1832)
8) Eu trabalhava das cinco da manhã até as nove da noite. Eu vivia a duas milhas do moinho. Nós não tínhamos relógio. Se eu chegasse atrasado ao moinho eu seria punido com descontos em meu pagamento. Eu quero dizer com isso que se chegasse quinze minutos atrasado, meia hora de meu pagamento seria retirado. Eu só ganhava um penny por hora, e eles iriam tirar metade disso. (Elizabeth Bentley foi entrevistada por representantes do parlamento britânico em junho de 1832)
9) A tarefa que inicialmente foi dada a Robert Blincoe era a de pegar o algodão que caía no chão. Aparentemente nada poderia ser mais fácil... Mesmo assim ele ficava apavorado pelo movimento das máquinas e pelo barulho dos motores. Ele também não gostava da poeira e do cano que soltava fumaça, pois acabava se sentindo sufocado. Ele logo ficou doente e em virtude disso constantemente parava de trabalhar porque suas costas doíam. Isso motivou Blincoe a se sentar; mas essa atitude, ele logo descobriu, era proibida nos moinhos. (As experiências vividas por John Brown numa fábrica de tecidos foram publicadas num artigo do jornal The Lion)
10) São constantes as informações sobre crianças que trabalham em fábricas e que são cruelmente agredidas pelos supervisores a ponto de seus membros se tornarem distorcidos pelo constante ficar de pé e curvar-se (para apanhar). Por isso eles crescem e se tornam aleijados. Eles são obrigados a trabalhar treze, quatorze ou até quinze horas por dia. (Trecho do livro “A História da produção de algodão”, de Edward Baines).

8º ANO: Revolução Industrial


A Revolução Industrial

            A substituição das ferramentas pelas máquinas, da energia humana pela energia motriz e do modo de produção doméstico pelo sistema fabril constituiu a Revolução Industrial; revolução, em função do enorme impacto sobre a estrutura da sociedade, num processo de transformação acompanhado por notável evolução tecnológica.

A Revolução Industrial aconteceu na Inglaterra na segunda metade do século XVIII e encerrou a transição entre feudalismo e capitalismo, a fase de acumulação primitiva de capitais e de preponderância do capital mercantil sobre a produção. Completou ainda o movimento da revolução burguesa iniciada na Inglaterra no século XVII.

Etapas da industrialização


Podem-se distinguir três períodos no processo de industrialização em escala mundial:


1760 a 1850 – A Revolução se restringe à Inglaterra, a "oficina do mundo". Preponderam a produção de bens de consumo, especialmente têxteis, e a energia a vapor.

1850 a 1900 – A Revolução espalha-se por Europa, América e Ásia: Bélgica, França, Alemanha, Estados Unidos, Itália, Japão, Rússia. Cresce a concorrência, a indústria de bens de produção se desenvolve, as ferrovias se expandem; surgem novas formas de energia, como a hidrelétrica e a derivada do petróleo. O transporte também se revoluciona, com a invenção da locomotiva e do barco a vapor.

1900 até hoje – Surgem conglomerados industriais e multinacionais. A produção se automatiza; surge a produção em série; e explode a sociedade de consumo de massas, com a expansão dos meios de comunicação. Avançam a indústria química e eletrônica, a engenharia genética, a robótica.

Artesanato, manufatura e maquinofatura


O artesanato, primeira forma de produção industrial, surgiu no fim da Idade Média com o renascimento comercial e urbano e definia-se pela produção independente; o produtor possuía os meios de produção: instalações, ferramentas e matéria-prima. Em casa, sozinho ou com a família, o artesão realizava todas as etapas da produção.


A manufatura resultou da ampliação do consumo, que levou o artesão a aumentar a produção e o comerciante a dedicar-se à produção industrial. O manufatureiro distribuía a matéria-prima e o artesão trabalhava em casa, recebendo pagamento combinado. Esse comerciante passou a produzir. Primeiro, contratou artesãos para dar acabamento aos tecidos; depois, tingir; e tecer; e finalmente fiar. Surgiram fábricas, com assalariados, sem controle sobre o produto de seu trabalho. A produtividade aumentou por causa da divisão social, isto é, cada trabalhador realizava uma etapa da produção.


Na maquinofatura, o trabalhador estava submetido ao regime de funcionamento da máquina e à gerência direta do empresário. Foi nesta etapa que se consolidou a Revolução Industrial.


O pioneirismo inglês


Quatro elementos essenciais concorreram para a industrialização: capital, recursos naturais, mercado, transformação agrária.


Na base do processo, está a Revolução Inglesa do século XVII. Depois de vencer a monarquia, a burguesia conquistou os mercados mundiais e transformou a estrutura agrária. Os ingleses avançaram sobre esses mercados por meios pacíficos ou militares. A hegemonia naval lhes dava o controle dos mares. Era o mercado que comandava o ritmo da produção, ao contrário do que aconteceria depois, nos países já industrializados, quando a produção criaria seu próprio mercado.


Até a segunda metade do século XVIII, a grande indústria inglesa era a tecelagem de lã. Mas a primeira a mecanizar-se foi a do algodão, feito com matéria-prima colonial (Estados Unidos, Índia e Brasil). Tecido leve, ajustava-se aos mercados tropicais; 90% da produção ia para o exterior e isto representava metade de toda a exportação inglesa, portanto é possível perceber o papel determinante do mercado externo, principalmente colonial, na arrancada industrial da Inglaterra. As colônias contribuíam com matéria-prima, capitais e consumo.


Os capitais também vinham do tráfico de escravos e do comércio com metrópoles colonialistas, como Portugal. Provavelmente, metade do ouro brasileiro acabou no Banco da Inglaterra e financiou estradas, portos, canais. A disponibilidade de capital, associada a um sistema bancário eficiente, com mais de quatrocentos bancos em 1790, explica a baixa taxa de juros; isto é, havia dinheiro barato para os empresários.


Depois de capital, recursos naturais e mercado, vamos ao quarto elemento essencial à industrialização, a transformação na estrutura agrária após a Revolução Inglesa. Com a gentry no poder, dispararam os cercamentos, autorizados pelo Parlamento. A divisão das terras coletivas beneficiou os grandes proprietários. As terras dos camponeses, os yeomen, foram reunidas num só lugar e eram tão poucas que não lhes garantiam a sobrevivência: eles se transformaram em proletários rurais; deixaram de ser ao mesmo tempo agricultores e artesãos.


Duas conseqüências se destacam:


1) diminuiu a oferta de trabalhadores na indústria doméstica rural, no momento em que ganhava impulso. 0 mercado, tornando-se indispensável adotar nova forma de produção capaz de satisfazê-lo;


2) a proletarização abriu espaço para o investimento de capital na agricultura, do que resultaram a especialização da produção, o avanço técnico e o crescimento da produtividade.


A população cresceu, o mercado consumidor também; e sobrou mão-de-obra para os centros industriais.


Mecanização da Produção


As invenções não resultam de atos individuais ou do acaso, mas de problemas concretos colocados para homens práticos. O invento atende à necessidade social de um momento; do contrário, nasce morto. Da Vinci imaginou a máquina a vapor no século XVI, mas ela só teve aplicação no ,século XVIII.


Para alguns historiadores, a Revolução Industrial começa em 1733 com a invenção da lançadeira volante, por John Kay. O instrumento, adaptado aos teares manuais, aumentou a capacidade de tecer; até ali, o tecelão só podia fazer um tecido da largura de seus braços. A invenção provocou desequilíbrio, pois começaram a faltar fios, produzidos na roca. Em 1767, James Hargreaves inventou a spinning jenny, que permitia ao artesão fiar de uma só vez até oitenta fios, mas eram finos e quebradiços. A water frame de Richard Arkwright, movida a água, era econômica mas produzia fios grossos. Em 1779, S Samuel Crompton combinou as duas máquinas numa só, a mule, conseguindo fios finos e resistentes. Mas agora sobravam fios, desequilíbrio corrigido em 1785, quando Edmond Cartwright inventou o tear mecânico.


Cada problema surgido exigia nova invenção. Para mover o tear mecânico, era necessária uma energia motriz mais constante que a hidráulica, à base de rodas d’água. James Watt, aperfeiçoando a máquina a vapor, chegou à máquina de movimento duplo, com biela e manivela, que transformava o movimento linear do pistão em movimento circular, adaptando-se ao tear.


Para aumentar a resistência das máquinas, a madeira das peças foi substituída por metal, o que estimulou o avanço da siderurgia. Nos Estados Unidos, Eli Whitney inventou o descaroçador de algodão.


Revolução Social


Revolução Industrial concentrou os trabalhadores em fábricas. O aspecto mais importante, que trouxe radical transformação no caráter do trabalho, foi esta separação: de um lado, capital e meios de produção (instalações, máquinas, matéria-prima); de outro, o trabalho. Os operários passaram a assalariados dos capitalistas (donos do capital).


Uma das primeiras manifestações da Revolução foi o desenvolvimento urbano. Londres chegou ao milhão de habitantes em 1800. O progresso deslocou-se para o norte; centros como Manchester abrigavam massas de trabalhadores, em condições miseráveis. Os artesãos, acostumados a controlar o ritmo de seu trabalho, agora tinham de submeter-se à disciplina da fábrica. Passaram a sofrer a concorrência de mulheres e crianças. Na indústria têxtil do algodão, as mulheres formavam mais de metade da massa trabalhadora. Crianças começavam a trabalhar aos 6 anos de idade. Não havia garantia contra acidente nem indenização ou pagamento de dias parados neste caso.


A mecanização desqualificava o trabalho, o que tendia a reduzir o salário. Havia freqüentes paradas da produção, provocando desemprego. Nas novas condições, caíam os rendimentos, contribuindo para reduzir a média de vida. Uns se entregavam ao alcoolismo. Outros se rebelavam contra as máquinas e as fábricas, destruídas em Lancaster (1769) e em Lancashire (1779). Proprietários e governo organizaram uma defesa militar para proteger as empresas.


A situação difícil dos camponeses e artesãos, ainda por cima estimulados por idéias vindas da Revolução Francesa, levou as classes dominantes a criar a Lei Speenhamland, que garantia subsistência mínima ao homem incapaz de se sustentar por não ter trabalho. Um imposto pago por toda a comunidade custeava tais despesas.


Havia mais organização entre os trabalhadores especializados, como os penteadores de lã. Inicialmente, eles se cotizavam para pagar o enterro de associados; a associação passou a ter caráter reivindicatório. Assim surgiram as tradeunions, os sindicatos. Gradativamente, conquistaram a proibição do trabalho infantil, a limitação do trabalho feminino, o direito de greve.

 

ENSINO MÉDIO: DOUTRINAS SOCIAIS OU IDEOLOGIAS DO SÉCULO XIX


DOUTRINAS SOCIAIS OU IDEOLOGIAS DO SÉCULO XIX
Num panorama de luta de classes marcado por greves, reformas e revoluções, as doutrinas socialistas, contrárias ao liberalismo e ao capitalismo e pregavam o restabelecimento da soberania do trabalho sobre o capital.
Vejamos as principais teses que disputavam o poder em nome dos interesses de classe.

LIBERALISMO
A partir da Revolução Industrial, a Europa se caracterizou pelas novas  concepções de riqueza e trabalho contida no capitalismo, teorizado pelos economistas liberais clássicos Adam Smith e David Ricardo.
A descoberta de novas técnicas permitiu a mecanização da produção, consolidando o sistema fabril com a aplicação dos capitais em máquinas e matérias-primas. Porém, o alto custo das máquinas e ferramentas industriais levava os empresários a utilizá-las intensivamente, a fim de recuperar os investimentos iniciais e obter lucros. Isso era feito mediante o emprego de de uma mão-de-obra barata e numerosa, submetida a jornadas médias de trabalho de de dezesseis hoas por dia. Mulheres e crianças eram largamente empregadas, uma vez que sua remuneração era inferior à da mão-de-obra masculina.Portanto, os objetivos dessa ideologia era manter a inviolabilidade da propriedade privada, buscar cada vez mais, lucros aviltantes e tudo isso, é claro, às custas do trabalho humano -  principal força criadora de riquezas.
SOCIALISMO UTÓPICO

Também chamado de socialismo romântico, surge no início do século XIX e concebe a organização de uma sociedade ideal sem conflitos ou desigualdades. Os pensadores buscam no Iluminismo e nos ideais da Revolução Francesa os fundamentos de sua crítica à sociedade capitalista. O inglês Thomas Morus é o precursor, com o livro Utopia (1516), no qual afirma que a propriedade particular é a fonte de toda injustiça social. Os principais representantes são o inglês Robert Owen, que defende a sociedade autogerida, e os franceses Charles Fourrier, que pretende uma organização em que todos vivam harmonicamente, e Saint-Simon, que idealiza o domínio da ciência sobre uma sociedade sem classes.
Robert Owen (1771-1858), rico industrial inglês que se transforma em um dos mais importantes socialistas utópicos. Sua contribuição nasce da própria experiência. Instala em New Lanark (Escócia) uma comunidade inspirada nos ideais utópicos. Monta uma fiação no centro de uma comunidade operária e promove a organização de serviços comunitários de educação, saúde e assistência social. A comunidade passa a se autogerir e todos os integrantes pertencem à mesma classe. No lugar de dinheiro circulam vales correspondentes ao número de horas trabalhadas. 
Charles Fourrier (1772-1837) nasce em Besançon, França, filho de um comerciante de tecidos. Trabalha como comerciante mas acaba falindo e decide servir o Exército. Afastado da ativa por problemas de saúde, volta a trabalhar com o comércio e começa a escrever sobre questões sociais e econômicas.
Em 1822 lança o jornal O Falanstério (depois mudado para A Falange), defendendo sua idéias, influenciadas pelo idealismo de Rousseau. Propõem que a sociedade se organize em comunidades chamadas falanstérios, espécie de edifícios-cidades onde as pessoas trabalham apenas no que querem. Fourrier defende assim o fim da dicotomia entre trabalho e prazer.
Nos falanstérios os bens são distribuídos conforme a necessidade. A educação deve se adaptar às inclinações de cada criança e não existem restrições morais à prática de sexo.

Saint-Simon (1760-1825) é como fica conhecido o pensador francês Claude Henri de Rouvroy, conde de Saint-Simon, um dos principais socialistas utópicos. Nasce em Paris e entra para o Exército com 17 anos. Luta na guerra de Independência dos Estados Unidos e, de volta à França, abandona seu título de nobreza e adere à Revolução Francesa.
Retoma os estudos aos 40 anos, depois de ter sido preso durante o Período de Terror. Cursa medicina e a Escola Politécnica. Começa a se projetar como teórico do socialismo em 1802, com o livro Cartas de um habitante de Genebra a seus contemporâneos, no qual defende uma nova religião baseada na ciência e dedicada ao culto de Newton. Suas idéias são retomadas pelo tecnocratas no século XX.


SOCIALISMO CIENTÍFICO
Teoria política elaborada por Karl Marx e Friedrich Engels entre 1848 e 1867. Essa corrente deriva da dialética (resultado da luta de forças opostas) hegeliana e é influenciada pelo socialismo utópico e pela economia inglesa. A partir do materialismo histórico, prevê o triunfo final dos trabalhadores sobre a burguesia. Marx chama de comunismo essa sociedade e de socialismo o processo de transição do capitalismo ao comunismo.
Materialismo histórico – Segundo Marx, o homem e suas atividades são reflexos das condições materiais que o cercam. Estas são determinadas pela História, que é resultado do confronto de classes sociais antagônicas que lutam pela hegemonia. A luta de classes é o motor da história e só desaparece com a instalação de uma sociedade comunista, sem divisão de classes ou exploração do trabalho, e baseada na solidariedade. O Estado é o instrumento pelo qual a classe dominante exerce essa hegemonia sobre as demais.
Karl Marx (1818-1883), filósofo, economista e militante revolucionário alemão de origem judaica. Estuda filosofia nas universidades de Berlim e Iena. Em 1842 assume em Colônia a chefia da redação do Rheinische Zeitung. Seus artigos pró-democracia irritam as autoridades e o levam a exilar-se em Paris dois anos depois. Ali conhece Friedrich Engels, com quem manteria colaboração até o fim da vida. Em 1848 o início de revoluções na França e na Alemanha coincide com a publicação do Manifesto comunista, em que Marx e Engels afirmam que a solidariedade internacional dos trabalhadores em busca de sua emancipação supera o poder dos Estados nacionais. Junto com Engels prega uma revolução internacional que derrube a burguesia e implante o comunismo, nova sociedade sem classes. Publica em 1867 o primeiro volume de sua obra mais importante, O capital.
Os volumes seguintes dessa obra, para a qual reuniu vasta documentação, seriam publicados somente depois de sua morte. Para Marx, o capitalismo é a última forma de organização social baseada na exploração do homem pelo homem. Marx é sustentado por Engels durante a maior parte de sua vida e morre no exílio em Londres.
Friedrich Engels (1820-1895), filho de um rico industrial de Barmen (Alemanha), é o principal colaborador de Karl Marx na elaboração das teorias do materialismo histórico. Na juventude, fica impressionado com a miséria em que vivem os trabalhadores das fábricas de sua família. Quando estudante, adere a idéias de esquerda, o que o leva a aproximar-se de Marx.
Assume por alguns anos a direção de uma das fábricas do pai em Manchester e suas observações nesse período formam a base de uma de suas obras principais, A situação das classes trabalhadoras na Inglaterra, publicada em 1845. Muitos de seus trabalhos posteriores são produzidos em colaboração com Marx, o que lhe valeria a fama injusta de ser apenas um ajudante.
Escreve sozinho, porém, algumas das obras mais importantes para o desenvolvimento do que viria a ser chamado de marxismo, como Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia alemã, A evolução do socialismo de utopia a ciência e A origem da família, da propriedade privada e do Estado.


ANARQUISMO
Movimento que surge no século XIX, propondo uma organização da sociedade onde não haja nenhuma forma de autoridade imposta. Para os anarquistas, uma revolução não deve levar à criação de um novo Estado porque este seria sempre uma nova forma de poder coercitivo.
O anarquismo tem duas correntes importantes. Uma, pacífica, que tem como principal representante o francês Pierre-Joseph Proudhon. Para ele qualquer mudança social deve ser feita com base na fraternidade e na cooperação entre os homens. A outra corrente afirma que a modificação da sociedade só pode ser feita depois de destruída toda a estrutura social existente. Para isso é válida a utilização da violência e do terrorismo.
O russo Mikhail Bakunin, considerado um dos principais teóricos e militantes do anarquismo, chega a participar de atentados, influenciado por Serguei Netchaiev, um dos defensores dessa corrente.
Mikhail Bakunin (1814-1876), anarquista russo, nasce em Premukhino, filho de um grande latifundiário. Em 1840 começa a estudar na Universidade de Berlim e no ano seguinte começa a se dedicar a atividades políticas. Entre 1843 e 1848 viaja por toda a Europa. Participa de movimentos revolucionários na Alemanha e acaba condenado à morte. Foge para a Rússia, onde é preso e deportado para a Sibéria, de onde foge para o Japão. Volta para a Europa e se envolve em movimentos revolucionários na Polônia e na Itália. Adere à Primeira Internacional. Em 1868 funda a Aliança Internacional Democrática Social, entidade de destaque na introdução do anarquismo na Espanha. 
A partir de 1869 promove atentados junto com o russo Netchaiev. A intensa militância não impede que Bakunin deixe uma obra teórica. Propõe a revolução universal baseada no campesinato e defende o uso de violência.  
Entre seus livros mais importantes estão Deus e o Estado, de 1871, Federalismo, socialismo e antiteologismo, de 1872, e O Estado e a anarquia (1873). Morre em Berna, Suíça.
Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865), principal teórico do movimento anarquista, nasce em Besançon, França. Como sua família não tem condições de mantê-lo na escola, torna-se autodidata. Aos 18 começa a trabalhar como tipógrafo.
Em 1840 publica O que é a propriedade?, onde defende a idéia de que toda propriedade é uma forma de roubo. Sua crítica à sociedade passa a sensibilizar um grande número de trabalhadores e em 1848 ele é eleito para a Assembléia Nacional. Participa pouco das atividades parlamentares mas suas idéias, divulgadas também em seu trabalho como jornalista, contribuem para a transformação do anarquismo em movimento de massas.
Para ele a sociedade deve organizar sua produção e consumo em pequenas associações baseadas no auxílio mútuo entre as pessoas. Seus livros mais importantes são Sobre o princípio federativo, de 1863, e Sobre a capacidade política das classes trabalhadoras, de 1865. Morre de cólera em Paris.


Socialismo cristão
Preocupada com a miséria dos operários diante do triunfo do liberalismo, a Igreja Católica começou a pregar o catolicismo social ou socialismo cristão. Propunha reformas no capitalismo que humanizassem a sociedade e impedissem a exploração dos trabalhadores. Seu precursor foi o padre francês Robert de Lamenais (1782-1854)  e o reponsável pela doutrina foi o papa Leão XIII, que expôs a Encíclica Rerum Novarum (Das coisas Novas) em 1891. Muito embora defendesse uma distribuição mais ampla da propriedade privada, a Igreja rejeitava o socialismo revolucionário e as mudanças estruturais da sociedade capitalista.

terça-feira, 19 de maio de 2015

MOVIMENTOS ANTICOLONIAIS NA AMÉRICA PORTUGUESA

 Revoltas Emancipacionistas
        O século XVIII, na Europa, foi um período de transição da velha ordem monárquica, absolutista, mercantilista e estamental para uma ordem mais liberal burguesa. Essas transformações foram encabeçadas por países como França e Inglaterra, berços de novas ideologias que vinham de encontro aos princípios do Antigo Regime.
         No plano filosófico, difundiram-se as idéias iluministas, que com o lema "liberdade, igualdade e fraternidade", baseavam-se no princípio de que todo homem podia aprender e agir com sua própria consciência, condenando a submissão total ao Estado e exaltando valores como o individulismo, o livre arbítrio, a liberdade de expressão e a propriedade privada. Influenciados por esta doutrina, muitos movimentos eclodiram na Europa. O primeiro deles foi a Revolução Industrial que impulsionou a burguesia e representou a transição do capitalismo mercantil para o capitalismo industrial, difundindo a doutrina do liberalismo. Outro movimento de influências Iluministas foi a Revolução Francesa que, também com bases liberalistas, fez a burguesia chegar ao poder. Toda essa movimentação na Europa, teve como conseqüência inicial a Independência dos Estados Unidos, que foi o primeiro forte indício da decadência do sistema colonial e o ato responsável pela divulgação do Regime Republicano na América.
        Todos estes acontecimentos e novos pensamentos circulantes chegavam ao Brasil através de um hábito da época que era o de jovens da elite colonial brasileira viajarem para a Europa para completar seus estudos, em sua grande maioria na universidade de Coimbra. Lá, entravam em contato com todos estas novas idéias e vinham divulgá-las na colônia ao retornarem. Em um Brasil sufocado pela intensa exploração da Coroa Portuguesa, tais ideais foram muito bem aceitos, servindo como fonte de inspiração para a ocorrência de algumas revoltas, cujas propostas revolucionárias foram estruturadas sobre o desejo de emancipação política da sua área de ocorrência.


Inconfidência Mineira
Conjuração Baiana
Quando
1789
1798
Onde
Vila Rica
Bahia - Salvador

Quem
Proprietários rurais, intelectuais, militares e clérigos contra o Governo Português
Escravos, alfaiates e soldados (em geral população negra e pobre). Movimento popular


Por quê
Revolta da elite de Vila Rica contra o domínio português e sua opressão tributária que retraia a condição econômica da capitania

Reivindicação contra o alto custo de vida em Salvador, falta de alimento e desigualdade social




Como
O movimento armado deveria eclodir no dia da implantação da nova derrama, porém esta não aconteceu devido a denúncia de três conspiradores. O movimento era frágil por não ter uma boa estrutura militar, bélica e falta de apoio popular
Conspiradores espalharam pela cidade cartazes que anunciavam o movimento. Houve repressão imediata, decretando a devassa

Influências externas
Idéias Iluministas e revolucionárias européias, Revolução Industrial e Independência dos EUA

Ideais de igualdade e independência da Revolução Francesa



Propostas Revolucionárias
Separação política de Brasil e Portugal, adoção do sistema republicano, transformação de São João Del Rei em nova capital do país, apoio à Industrialização, obrigatoriedade ao Serviço Militar e criação de uma universidade em Vila Rica


Igualdade social e racial, independência do Brasil, fim da escravidão e proclamação da República

Conseqüências
Prisão e exílio do envolvidos, enforcamento e esquartejamento de Tiradentes

Prisão e enforcamento dos principais envolvidos

terça-feira, 21 de abril de 2015

TIRADENTES E A INCONFIDÊNCIA MINEIRA

TIRADENTES E A INCONFIDÊNCIA MINEIRA, A CONSTRUÇÃO DE UMA FIGURA HEROICA*
Dia 21 de abril é uma excelente oportunidade de viagem, descanso e lazer em família, mas a maioria dos brasileiros não tem noção de certos aspectos que motivaram a criação de tal feriado.
Para compreendermos tais motivações é necessário voltar nosso olhar para o final do século XVIII e captar tanto o contexto vivido pelo Brasil colonial quanto o quadro internacional da época, que apesar dos esforços de Portugal influenciaram concretamente o desenrolar dos fatos em terras brasileiras.
Sabemos que estava no plano dos inconfidentes a separação do Brasil de Portugal. Nesse sentido, e somente nesse, o movimento pode ser entendido como um ‘prenúncio’ da Independência do Brasil. No entanto, é importante pensar nas transformações pelas quais passava o Império Colonial Português e, nesse contexto, integrar as manifestações de descontentamento que ocorriam na Colônia. Manifestações estas de inconformismo político no interior do espaço colonial, cuja inteligibilidade histórica deve ser buscada no movimento geral de transformações do capitalismo que deu origem tanto à Revolução Industrial quanto a mudanças sociais e políticas, tais como a independência dos Estados Unidos e a Revolução Francesa, afrontaram a ordem estabelecida do poder absoluto de reis europeus pela classe burguesa.
Os historiadores de certa forma concordam em afirmar que os homens daquele período haviam perdido muito do temor ao poder da metrópole. Nas praças públicas, nos saraus literários, nos quartéis, em todo lugar em que houvesse um ajuntamento de pessoas, as conversas podiam acabar questionando a autoridade, ou mesmo a legitimidade da metrópole. Estava no ar a ideia da sedição, revolta. Por outro lado, também certo desconforto e certa inquietação traduziam um sentimento de decadência, ou de crise, invadindo a todos, como um anúncio da falência do sistema de controle português sobre as terras brasileiras.
Desde a descoberta de ouro nas minas, a Coroa se preocupou em cobrar impostos e os conflitos em torno desse assunto marcariam toda a história da região. Houve diferentes sistemas de arrecadação ao longo do tempo, sempre onerando a população em geral, que manifestava sua insatisfação com protestos. É nesse quadro que se pode entender o jogo entre as medidas levadas a efeito pela metrópole para aumentar a arrecadação e as alternativas encontradas pela população para burlar tais cobranças, principalmente por meio do contrabando. Em 1750 a Coroa portuguesa estabeleceu uma contribuição mínima de cem arrobas de ouro ao ano, o que correspondia a 1.465,60 quilos aproximadamente. Caso essa quantia não fosse atingida, seria cobrada através da derrama, ou seja, todos os habitantes seriam obrigados a contribuir para completar a diferença. Tal ordem gerou toda sorte de abusos por parte das autoridades, espalhando o terror na região a cada vez que se anunciava a cobrança da derrama. Muitas manifestações de insatisfação, rebeliões e revoltas marcaram o século XVIII na região das minas, quase sempre tendo como motivo a cobrança dos impostos.
Apesar de todo o esforço contrário da Coroa portuguesa, houve uma grande difusão das ideias iluministas na colônia, como liberdade e a igualdade. A proclamação da independência dos Estados Unidos teve ampla repercussão entre os membros da elite mineira, pois mostrava concretamente a possibilidade de quebra da dominação portuguesa sobre a colônia.  Os ideais iluministas eram muito discutidos nas minas, a Elite colonial mineira era formada homens bem informados, que não só debatiam filosofia e literatura, mas também aproveitavam suas reuniões para questionar e criticar
atos governamentais, despachos e decretos que chegavam de Lisboa e afetavam diretamente a administração local.
Não se sabe com clareza como os inconfidentes pretendiam organizar o novo país. Sabemos apenas que o movimento propunha a Independência e a proclamação de uma República. Alguns dos inconfidentes, no entanto, não concordavam com a abolição da escravidão, pois eram grandes proprietários de escravos. Propunha também a criação de uma universidade em Vila Rica (atual Ouro Preto), a liberdade de comércio e o estabelecimento de fábricas e manufaturas para dinamizar a vida econômica do novo país.
Não é nosso objetivo aqui detalhar os passos do movimento; basta lembrar a denúncia feita por Joaquim Silvério dos Reis e o fracasso da conspiração. Muitos inconfidentes foram presos e posteriormente levados a julgamento. Destes, onze foram condenados à morte, mas dez, tiveram a pena comutada para degredo. Somente Tiradentes confessou, assumindo a responsabilidade pela conspiração, sendo o único executado.
Popular, e muito comunicativo, Tiradentes falava abertamente contra a Coroa portuguesa, criticando a exploração da colônia pela metrópole e divulgando as ideias do movimento. Era crítico e audacioso, considerado por alguns um “homem perigoso” por suas ideias, pela forma destemida com que as expunha.
Nascido em São João del Rei, Joaquim José da Silva Xavier tinha em sua juventude sido mascate e também exercera o ofício de dentista, ganhando então o apelido que o acompanhou por toda a vida. Posteriormente ingressou na carreira militar, ocupando o cargo de alferes da cavalaria. Nessa atividade, estava sempre em contato com a população das vilas vizinhas. Recebia um
pequeno soldo, vivendo em uma posição social e econômica bem precária. Queixava-se de ter sido preterido sucessivas vezes na indicação de promoções.
Afinal, por que dar tanta importância a fatos mencionados até aqui, a ponto de dedicar um dia de homenagem à figura de Tiradentes?
Dentro das possíveis respostas seria importante desvestir um pouco a Inconfidência do caráter cívico com o qual foi recoberta posteriormente, no processo de construção de uma história nacional, e discutir a dimensão humana da experiência dos inconfidentes, principalmente em relação à
forte repressão que se seguiu.
A própria sentença de condenação de Tiradentes mostra a intenção de levar a cabo uma morte exemplar, pois foi planejada em seus mínimos detalhes, para reafirmar diante da população colonial o poder e a força da Coroa portuguesa. Mas a morte não era suficiente para marcar a exemplaridade, sendo necessário construir uma memória em torno do ato considerado execrável. Por isso o esquartejamento, a exposição das partes do corpo pelas estradas de Minas, a exibição pública de sua cabeça em um poste no centro de Vila Rica, a destruição de sua casa e o salgamento do terreno, além da declaração de seus filhos e netos como infames.
O processo de construção desse mito de representação heroica não foi simples. Foi por meio das diferentes versões que se escreveu da história e as representações plásticas e literárias de Tiradentes, que ao longo do tempo fizeram sua aproximação com a figura de Cristo, em obras de muitos artistas brasileiros, identificando-o como mártir. Para a nascente República, proclamada em 1889, Tiradentes era o candidato ideal a herói. Defendia a instituição da República, pertencia às camadas populares, foi executado de forma trágica, enfim sua trajetória marcava decisivamente o imaginário da população como personagem que “unia o país através do espaço, do tempo, das classes”. Aos poucos essa imagem de um herói republicano para se transformar em herói nacional: proliferam nomes de praças, ruas e monumentos em sua homenagem; o 21 de abril foi declarado feriado nacional já em 1890 e, consolidando esse processo, Tiradentes foi declarado em 1965 Patrono Cívico da Nação Brasileira.
Na análise do historiados José Murilo de Carvalho em seu livro sobre a construção da identidade brasileira (1993): […] heróis são símbolos poderosos, encarnações de ideias e aspirações, pontos de referência, fulcros de identificação coletiva. São, por isso, instrumentos eficazes para atingir a cabeça e o coração dos cidadãos a serviço da legitimação de regimes políticos. Não há regime que não promova o culto de seus heróis e não possua o seu panteão cívico.

* Por VÍTOR HUGO GARAEIS, pós-graduado em Abordagens do Ensino da História / Educação Patrimonial licenciado em História e professor da disciplina de História do Instituto de Educação São José.